quarta-feira, 13 de abril de 2011

TRANSMUTAÇÃO

Saiu taciturnamente da casa como lhe era de costume. Nada para ele parecia igual ao que sempre havia sido.
O céu, o pequeno jardim, os sons, os aromas... Só quem pudesse observar-lhe de frente, poderia notar-lhe pelo brilho do olhar, que por trás daquele semblante, já não existia aquela figura germinada no passado... E pelo passado...
     Observando tudo ao seu redor, só após se passar longo e interminável minuto, notara-lhe a falta de roupas... Estava nu!!! E alegrou-se por estar nu! E bailou consigo mesmo... E viu que ninguém melhor que ele , poderia acompanhar-lhe nessa desnuda dança; nesse infinito salão...
     De repente, algo extraordinário acontece. Ele nota que agora pode controlar cada célula, cada átomo de seu copo. Sente que pode controlar todos os seus impulsos e emoções... Fantástico!!!!!!!!!!!  Grita guturalmente para si mesmo, como se até então estivesse surdo às suas próprias palavras... Mudo ante seu introspectivo silêncio... Viu que até então vivia morto dentro de si.
     Sem nenhuma resistência átomo-celular, lentamente enfia a mão em seu peito, e , o que traz de dentro de seu torax, nada mais era que seu próprio coração... Olhou para ele espantado. De onde poderia ter vindo tanta crosta? Estava a ponto de ter um ataque cardíaco sem o saber até então. Calmamente, passa a limpar o coração de todas as mazelas do passado; dando-lhe um novo brilho, uma nova nuance. Uma nova chance...
     Após certificar-se de ter o coração funcionando no rítmo de seu novo ser, passa a concentrar-se em seu espírito. E de sua boca sai lentamente sua alma...Também impregnada de mofo do passado... Que ele com muito cuidado, leva para secar sob um novo sol... Sob um novo céu... Sobre um novo ser... Contente por ver que ainda havia como reverter o efeito do mofo que, fora de tempo impregnado. Sorri!
     Atravessa a parede da casa qual um fantasma. Quando se da conta, já esta no banheiro... Ele não defeca, não urina, não se banha, não se barbeia, não se escova, não se masturba... Apenas faz o que nunca fez, e, como nunca o fez! Não o sabe fazedor. Vai à sala. Não senta no sofá, não ascende a lareira, não liga o som, nem tão pouco a TV. Apenas pensa o que nunca pensou e como nunca pensou! Nada mais queria pensar, a não ser naquilo em que nunca havia pensado pensar. Pensou...
    Deita-se como nunca se deitou antes... E vislumbrou o porvir, tendo em si, a certeza que a partir daquela transmutação, ele passaria a sonhar... Ninguém mais pensaria por ele!Ninguém mais falaria por ele! Ninguém mais seria ele. Apenas ele mesmo... E todo um novo mundo  agora descortinava-se ao seu redor... Ri! E dorme o sono dos independentes! Dos não vendidos pelo consumo...
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Todos sabem da magnitude multicultural do Brasil. Somos mundialmente conhecidos por essa diversidade étnica, cultural e religiosa. Os valores da nossa cultura popular estão presentes nas mais diversas manifestações, nos quatro cantos do território brasileiro. O que não se pode conceber nesse universo plural é que artistas envolvidos com tais manifestações, apenas o façam tendo como meta, seus próprios e obscuros interesses.
Como exemplo linear desse imbróglio, gostaria de ater-me aos gastos públicos, no que tange aos vários “Projetos” que tem como pano de fundo a Guerra de Canudos. Desde já, é bom que se diga que, ao longo do século XX, muitas preciosas contribuições foram dadas por pessoas das mais variadas vertentes histórico-ideológicos, a exemplo do saudoso professor Edvaldo Calazans dentre outros.
Milhões e milhões de reais tem sido gasto nas últimas décadas em “projetos” oriundos de “historiadores, intelectuais, pesquisadores e afins”, que com o dinheiro do contribuinte, repassa á sociedade todas as suas verves acadêmicas sem, contudo, criar condições específicas de melhorias na condição de vida das comunidades que integram a geografia histórica do conflito.
Quando trazemos á luz da razão tais “Projetos”, nota-se que eles têm em seu bojo, apenas recompensas para um circulo de incompetentes travestidos de estudiosos que, só se sobressaem sob as asas da indústria cultural estatal, repleta de parasitas mambembes, advindos de suas receptivas facções partidários.
São três os temas explorados extenuantemente por esses exploradores do erário público: O autor Euclides da Cunha, sua obra Os Sertões e a guerra de Canudos em si. O grande escritor deve estar tremendo em seu túmulo ao ver sua obra vilipendiada por esses carniceiros de autores mortos, abutres da genialidade alheia, vermes a corroerem toda amplitude realmente histórica dessa saga sertaneja.
Vocês conhecem a estrada que leva a Cidade de Canudos??? Você conhece a estrutura do parque estadual de Canudos: Não há água potável, banheiro ou qualquer outro conforto que leve os turistas e a própria comunidade local a visitarem os sítios arqueológicos. Não há em Canudos um “projeto” social que tenha provido a comunidade local ao menos de uma leira de coentro.
Todos os anos acontecem às mesmas cenas: discursos, discursos, discursos... em meio a lançamentos de “Livros, documentários, filmes, cartilhas” dentre outros desperdícios. Qual o impacto direto que esses “Projetos” têm na comunidade e na cultura nacional como um todo??? Mas para dissertações, mestrados, doutorados, lançamentos editorias, festivais variados, que tem sempre as mesmas sanguessugas como patrocinados e o estado como patrocinador desses eventos, os temas acima supracitados tornaram-se o Éden para esses aventureiros dos meandros das verbas públicas.
O engraçado é que esses doutos senhores (as), só conseguem aparecer no cenário cultural, quando fazem parte de um ínfimo, mas poderoso circulo de amigos, ligados ás pessoas que têm dentre suas funções, analisar e aprovar tais “Projetos”. O triste nessa estória toda é que, os verdadeiros protagonistas da cultura popular, artistas inatos que fazem verdadeiramente as coisas acontecerem, têm apenas um papel secundário nisso tudo, cobaias que são dessa minoria formada pelo que há de pior na elite intelectual de nosso estado.
As coisas discutidas nesses eventos deveriam, na realidade, serem ensinadas na rede pública, em aulas de história do Brasil. É inadmissível que alunos recém saídos do ensino médio nada saibam sobre um dos episódios mais marcantes da história nacional: A fratricida guerra de canudos e seus desdobramentos políticos, religiosos e sociais ocorridos em todo território nacional.
É chegado o momento de alguém denunciar esses estapafúrdios e natimortos “Projetos”, a sociedade sertaneja não pode mais ser usada como massa de manobra dessa intelectualidade mórbida e ávida por reconhecimento pessoal e profissional. Que eles demonstrem suas virtudes através de suas competências e não por apadrinhamentos e conchavos com as instituições que liberam essas verbas. Nossas verbas, pois somos nós que pagamos por isso.
Sabemos que dentre ás pessoas envolvidas no estudo desse épico episódio nordestino, há gente séria, que só fazem engrandecer nossa história. O problema é que a Guerra de Canudos, o escritor Euclides da Cunha e sua obra Os Sertões, estão inseridos em um contexto onde, germina muito pouco trigo em meio a muito, muito joio... LEILSON LEÃO